Me lembro de semanas atrás quando postei um vídeo meu em uma rede social qualquer. Acabara de me arrumar para sair com umas amigas com as quais eu não encontrava fazia um tempo. No momento da gravação, eu me sentia bem. Pela primeira vez em bastante tempo, eu não me sentia uma falha só por estar viva. Ser bonita me proporcionaria o privilégio de existir sem que isso soasse como uma ofensa àqueles ao meu redor. Eu usava um vestido roxo claro colado bem rente ao corpo, apertando minha barriga sem ser nem um pouco generoso com os quilos extras em minha cintura e costas. Minhas curvas a mais e quilos extras eram visíveis a todos. Poderia tentar jogar um casaco por cima e vestir uma calça preta que disfarçasse, mas eles permaneceriam ali. Mesmo que sob camadas e mais camadas de tecido, eu ainda saberia que eles estavam ali, e todas as outras pessoas também. Me encontrava em um ponto onde nada era capaz de esconder o que eu era — inadequada. Estava ciente da minha forma física. Ainda que contra a minha vontade, eu estava lúcida. Por mais que em ocasiões normais eu estivesse pronta para cortar tais quilos fora com a primeira tesoura cega que encontrasse pela frente, naquele dia algo estava diferente. Naquele minuto, naquele segundo enquanto eu sentia uma gota minúscula de suor escorrer na parte de trás do meu pescoço, eu me sentia a pessoa mais linda do mundo, independente de qualquer coisa. Não perdi tempo — afinal de contas, não era sempre que eu não me sentia feito uma criminosa apenas por habitar meu corpo. Puxei o celular do carregador. Vi o “73%” luminoso sumir da tela inicial quando destravei o aparelho e abri o aplicativo. O vídeo não era nada mais do que vinte e três segundos de mim mesma com uma música chiclete de fundo. Fazia caras e bocas, mexia no cabelo — no fundo, torcia para que alguém ficasse até o final daqueles vinte e poucos segundos. O engajamento era a minha versão digital e remota dos aplausos. Ser visto era o equivalente de ser aplaudido, e eu precisava ser aplaudida. Precisava tanto que poderia morrer se não fosse. Em um ato desesperado, pressionei o retângulo rosa que dizia “enviar”. Pensei que postar um vídeo meu onde nada além de eu errar a letra da música algumas vezes acontecia era por si só, um ato desesperado. Coloquei o celular em modo silencioso e ocultei as notificações — ficar incomunicável tornava tudo mais interessante. Mais tarde, quando finalmente recuperasse o contato com o mundo exterior, as notificações de curtidas e, se tivesse sorte, de comentários, apareciam como doces surpresas, pulando em minha tela de bloqueio, todas competindo pela minha atenção. Em tempos como aquele, isso era o melhor que eu poderia conseguir.
De longe, ao avistar minhas amigas, me arrependi quase que instantaneamente de ter aceito o convite. Observei seus vestidos pretos com brilho envolverem suas cinturas delicadamente e ali eu confirmei que aquilo havia sido um erro. Toda a minha confiança se desfez quando uma delas levou as mãos ao alto, sinalizando para que eu pudesse ver onde elas estavam. Seus braços finos pareciam me provocar. Eu jamais poderia levantar meus braços daquele jeito em um vestido de alcinha sem que me sentisse demasiadamente exposta. Seus corpos esbeltos realçavam suas roupas e seus pescoços magros eram envolvidos por belas correntes de ouro e prata, onde suas iniciais balançavam ao lado de pingentes de pequenas pedras coloridas. Era claro que elas haviam combinado entre si o que iriam vestir para a ocasião; e era ainda mais claro que, por mais que o meu contato com elas nos últimos anos andasse escasso, elas continuavam próximas, mais próximas do que nunca. Minha roupa era inadequada. Elas me abraçaram. Concordamos que fazia muito tempo desde a última vez em que nos vimos. Entre suas frases dirigidas a mim, que também pareciam ter sido combinadas, elas olhavam uma para a outra e riam de maneira casual e nada discreta. Era possível que elas estivessem zombando de mim? Até que ponto o que eu achava que elas pensavam sobre mim era real, ou apenas meus anos de ensino médio voltando com tudo? As meninas faziam a conversa andar. Transitavam entre inúmeros assuntos e mantinham o diálogo ativo. Elas se entendiam como ninguém; já eu, parada ali em frente a elas, só conseguia pensar sobre o quão ridícula eu deveria estar, ou sobre o que elas falariam sobre mim quando chegassem em casa e finalmente estivessem longe de mim. Quem sabe até fariam uma ligação para comentar sobre todos os pontos que faziam de mim uma criatura tão nojenta. Antes mesmo que pudessem contar sobre a faculdade ou estágios, percebi que seus assuntos favoritos eram os que envolviam namorados. Namorados delas, namorados dos outros, ex-namorados — falar sobre os homens com quem elas estavam ou já estiveram envolvidas parecia superar qualquer outro tópico. Sabia que não demoraria muito até que elas percebessem minha distância e me questionassem sobre a minha vida amorosa. Meus namorados, meus maridos, meus ex-namorados. Me atentei ao fluxo da conversa e torci para que minhas tentativas de mudar de assunto fossem bem sucedidas antes que elas pudessem sequer lembrar que eu também tinha uma vida. Não foram. A pergunta foi feita e eu preferiria ter sido esfaqueada oitenta e sete vezes nos membros inferiores e largada sangrando, abandonada para morrer. Anos depois do ensino médio, eu ainda me encontrava no mesmo lugar. Bem ali, naquela mesa no canto de um bar bem frequentado, se é que isso realmente existe, eu estava novamente em meu inferno pessoal. Ouvindo as mesmas meninas conversarem sobre as mesmas coisas e sentindo o mesmo medo e o mesmo desconforto. Penso que devo ter algum tipo de amor pela minha própria humilhação, pois mesmo depois de tanto tempo, eu ainda me permitia cair nas mesmas armadilhas. Gostaria de voltar no tempo e pedir a minha eu de quinze anos para que ela pare de pensar que as coisas irão melhorar quando ela se tornar uma adulta — elas não vão. As respondo com um semblante sem graça. Tento parecer descontraída e despreocupada quanto a minha situação; fingir que não me importo com o fato de que minha vida continua a mesma desde o colégio. Continuo solteira e gorda. Mais gorda e mais solteira, se é que isso é possível. Minha vida era inadequada.
Assim como todas as outras pessoas que haviam me feito essa mesma pergunta, elas tentaram me consolar. Disseram que tudo bem, que nem todo mundo namora muitas vezes na vida, que está tudo bem, que não há nada de errado comigo. Uma delas diz que no fim das contas, está tudo bem mesmo, afinal existem homens que gostam de mulheres “mais gordinhas”, que “está na moda hoje em dia”. Sinto como se todos os meus ossos tivessem se quebrado dentro de mim. Me sobe um frio na espinha. Poucas palavras. Foram necessárias poucas palavras para que eu desejasse ter sido atropelada durante o caminho até o bar. Eu poderia vomitar. Penso em tudo que os outros já me disseram antes. Penso em tudo o que já me disseram sobre o meu peso ao decorrer de toda a minha vida. Penso em como meu corpo e meu peso são elementos invisíveis até que alguém comente sobre eles. Como me sinto humana, mesmo que um pouco desconfortável às vezes, até que alguém mencione o fato de eu não usar calças jeans tamanho trinta e quatro. Eu sou um elefante na sala esperando que alguém faça algum comentário ou me dê algum conselho sobre alguma dieta milagrosa que vai me fazer secar trinta quilos em um mês. Meu corpo era inadequado. Já passei por tudo isso antes, mesmo assim, a dor é sempre a mesma da primeira vez. Nada nunca muda. Nem os outros, nem eu. A outra amiga concorda. As duas continuam a conversa normalmente. É claro que o que acabara de acontecer se classifica como uma violação apenas para mim; é normal que elas não enxerguem isso. As pessoas sempre acham que estão te fazendo um favor quando dizem coisas desse tipo, como se te ajudassem a sair do fundo do poço ao cavar ainda mais fundo. Não é assim que funciona. A conversa anda, mas eu permaneço no mesmo lugar. Se eu já não me sentia à vontade antes, agora eu torcia para que uma força poderosíssima tomasse conta de mim e me fizesse levantar da mesa e sair marchando em direção à porta, sem olhar para trás. Ou para que essa mesma força jogasse um meteoro que cairia bem em cima de mim. Não vou embora. Meu corpo me trai. Eu era inadequada.
Havia uma possibilidade de que elas não tivessem falado por mal, e por isso haviam apenas prosseguido como se nada tivesse acontecido. Eu compreenderia. Passei anos aguentando essas declarações vindo de todos os lados, não seria justo dar meia volta com elas e não cortar contato com todas as outras pessoas que haviam feito o mesmo. Fiquei até o final. Era capaz que tivesse bebido alguma coisa para acompanhá-las, no entanto, não posso dizer com certeza pois a partir daquela fala tudo se tornou um borrão para mim. Lembro que fui para casa. Um vento frio bate e eu abraço a mim mesma. Sinto meus braços com as mãos e lembro dos de minha amiga. A diferença era inadmissível. Meu corpo era inadmissível. Minha existência como um todo era inadmissível.
Já em meu quarto, lembrei do vídeo que havia postado. Me arrependo mais do que nunca pois no momento já era tarde demais para apagar. Já teriam interações e elas continuariam na aba de notificações mesmo se eu apagasse a postagem. Junto coragem para olhar. Parte de mim ainda espera que o vídeo esteja cheio de curtidas e comentários falando sobre como eu sou a pessoa mais linda do mundo. O nervosismo vem com tudo, mas vou mesmo assim. Abro meu perfil, clico no vídeo. Três curtidas e um comentário contendo um coração vermelho de uma conta cuja foto de perfil era um fundo branco com os dizeres “I love fat girls”. Saio do vídeo, fecho o aplicativo, largo o celular
Penso no que minhas amigas de ensino médio haviam dito mais cedo sobre rapazes que gostam de mulheres ‘mais gordinhas’. Penso se era isso o que eu havia me tornado, um tipo. Uma moda do momento. Parece piada. Me sinto uma piada. Eu não queria ficar com alguém que usa uma foto de perfil escrito “I love fat girls” em uma rede social. Eu não queria ficar com alguém cuja a bio em um aplicativo de relacionamento fosse “gosto de mulheres gordinhas” ou algo do gênero — eu gostaria de poder ficar com alguém simplesmente por ficar. Eu não queria ser um tipo ou uma categoria. Eu gostaria que alguém pudesse gostar de mim apenas por gostar; sem motivos ou sem padrões que façam de mim um produto, ou alguém que as pessoas olhariam e pensariam sobre como fazia sentido que eu houvesse sido escolhida apenas com base no meu corpo. Eu gostaria de não ser vista como “a mulher gorda” ou “a mulher gordinha”, ou “a mulher fofinha” e qualquer outra nomenclatura que atribuam à pessoas acima do peso. Eu gostaria de ser só uma pessoa, mais nada.
obrigada por ler até aqui :) me diz o que achou da edição de hoje



