Puseram todas as minhas coisas em uma caixa de papelão de tamanho médio. Encarei ela aberta, portas escancaradas. Vi meus livros, meus CDs, meus panfletos de dentista, meus cadarços, meus papéis de chiclete. Me atraquei na caixa e a abracei — apertei como se fosse a última coisa no mundo. A última coisa que eu tive, a última coisa que me restou. Abri os livros e senti o cheiro do mofo nas páginas já forte na porta das narinas, invadindo tudo. Folheei e senti um leve nojo, o mesmo que sentia quando folheava os livros da finada biblioteca pública, aquela perto do banco. Nojo das páginas amareladas, nojo da poeira na capa, nojo das palavras mal traduzidas e nojo das palavras do antigo português. Lembrei de cada centavo gasto nesses livros. Me aquieto.
Remexo nos CDs e acho graça. Alguns de colecionador, tão caros quanto raros, outros de barraquinhas de produtos pirata. Alguns de presente, alguns da compra. Filmes do horror, séries de comédia, álbuns de jazz. Apenas algumas avarias nas laterais devido o movimento repetitivo do abre-e-fecha. Os flyers do meu antigo dentista e mais alguns de planos de celular que peguei de umas mocinhas na rua e joguei pro fundo da bolsa, guardei tudo, tudo. Me enche de vergonha e lembro de uma frase uma vez dita para mim por alguém, "você nunca joga nada fora". Me encho de vergonha. Meus papéis de doce com carinhas engraçadas que colecionei durante parte da minha infância e que perdi para sempre depois que uma tia jogou fora. Passo a mão nos papeizinhos, tão bonitinhos, tantas carinhas diferentes. Meu meu e meu. Tudo nessa caixa é meu, tudo meu. Meu e de mais ninguém. Puxo a caixa mais pra perto e me inclino um pouco mais, me pondo pra dentro dela em um quase mergulho. Encontro uma fotinha, daquelas de documento, 3x4, de alguém. À essa altura, já esqueci quem era, e creio que esse alguém já se esquecera de mim também. Vejo notinhas de mercado. Um sabonete foi comprado no lugar tal no dia tal. Uma lata de guaraná foi comprada dia tal às tal horas. Minhas coisinhas, coisinhas lindas. Nada mais me resta além de vocês, minhas filhinhas. Nem um herdeiro no mundo saberia olhar para vocês como eu olho, com todo o meu amor, todo o meu carinho. Meus pais me amaram muito, isso é verdade, não nego — ainda assim, sinto que eu as amo muito mais. Coisinhas. Minhas coisinhas, minhas e minhas. Minhas e de mais ninguém. Minhas fotinhas, minhas notinhas, meus CDs, meus livrinhos, meus panfletos, meus fiozinhos, meus papeizinhos. Nada nesse mundo importa mais, tudo aqui é meu. Essa caixa tem tudo o que eu já quis, tudo o que eu já fui, tudo o que já me pertenceu habita aqui, nessa caixa de papelão tamanho médio, em cima desse chão encardido velho, do lado dessa cama cheia de carunchos, nesse quarto bizarro. Coisinhas, sempre soube que vocês seriam minhas filhas, meus frutos, minha herança e a prova de que um dia eu já andei por essas terras. Onde as senhorinhas vão parar quando eu sumir? Criancinhas, minhas filhas, me digam, quem vai ter vocês quando eu já não estiver mais aqui para cumprir essa função? Me ajudem a entender esse processo, filhinhas. Não sejam tiradas de mim, por favor, não aceitem outro dono que não eu. Não deixem que lhes olhem com o amor que eu as olho agora, não permitam que lhes amem como eu as amo agora. Coisinhas, minhas coisinhas. Pedi tanto para serem minhas, minhas e de mais ninguém, apenas minhas. Meu amor é profundo, incompreensível, incomparável e incondicional. Filhinhas, coisinhas, bebezinhas. Prometam que não deixarão ninguém tocar em vocês como eu toco, ver vocês como eu vejo, prezar por vocês como eu prezo. Digam que são minhas, minhas e de mais ninguém. Nada nunca fora meu, além de vocês, bebezinhas. Abraço a caixa. No fundo do meu íntimo do meu interior, perto do coração, um pouco acima do sexo, sinto o desejo de virar um objeto, virar uma coisinha, para assim, habitar essa caixinha e festejar eternamente na companhia de minhas coisinhas, viver para sempre na alegria de ser também uma coisinha. Coisinhas. Todas minhas, tão minhas, só minhas. Nunca jogo nada fora. O objeto não morre, ele persiste. O material tem vida eterna, tão eterna que é própria. Nada nunca fora tão meu, nem mesmo eu.
obrigada por ler até aqui :) me diz o que achou do conto de hoje! prometo que volto logo (ou quase isso)



nós cacareco girls!!
estava ansiosa pra ler desde que você postou a imagem de prévia esses dias. amei 🤍