Costumávamos conversar sobre o povo que acaba de sair da escola e já se casa, e eu sempre ri de todos, mas nunca imaginei que eu seria uma dessas pessoas. Minha mãe anda correndo feito barata tonta para lá e para cá com tantos preparativos, e eu estou aqui, ficando cada vez mais louca. Não contei para nenhuma das minhas amigas ainda. Nós ríamos dessas meninas que se casam cedo! E agora, sou o quê? Uma delas? Me coço toda de agonia, já tem gente me perguntando sobre o “meu marido”. Me estremeço de vergonha quando escuto essa palavra, “marido”. Chamo ele de esposo ou de marido? Uma tia minha chama o homem dela de esposo, mas eu acho um horror, parece muito com esposa. Se for para chamar por um nome que é quase esposa, porque não se casar com uma mulher logo? Pelo menos já fala a palavra certa de uma vez.
Mamãe me deu um tapão ontem na mesa porque me recusei a chamar José Carlos de marido, na frente de todo mundo, mesmo. Um silêncio terrível veio depois, todo mundo olhando, e eu com a metade da cara ardendo. Nem para me ajudarem. Sempre achei que teria uma vida cheia de amantes, amores tão intensos quanto passageiros, me animava com isso, com meus próprios pensamentos. E ainda sim, aqui estou eu, noiva aos dezenove anos. Patético, não é? Acha patético? Eu acho demais. Eu poderia me divorciar. Esperava só o casamento acontecer para dar inicio à papelada. Acabava logo de uma vez e me deixava livre para viver minha vida. Mas não posso. Gosto muito dele, fico até triste ao pensar que um dia viria a me separar dele. Queria poder voltar atrás — negar o pedido, dizer que estava muito cedo, que poderíamos continuar só namorando. Já seria melhor do que ter ficado com aquela cara de tonta que fiquei quando ele se ajoelhou e puxou a caixinha do anel do bolso. Ai, por que não fiz isso?
E ele vem todo dia aqui, beija minha mão, olha bem para o cristalzinho no anel, todo apaixonado. Me parte o coração. Eu terminaria com ele facinho, facinho, sabia? Nada poderia me impedir. Ele chegaria um dia e eu apenas diria “acabou”, e acabou. Mas tenho pena. Pena de mim e pena dele. Dele, pois sei que iria sofrer, e de mim, pois sei que também iria sofrer. Você acha que sofremos mais quando nós somos a razão da nossa própria infelicidade, ou quando são os outros? Não sei, não sei. Você não pode ver, mas estou me coçando de nervoso agora. Eu incluiria uma foto se pudesse, foto minha coçando a cabeça, o braço, tudo, estou toda empolada de tanto coçar. Já fui até no postinho para ver se era algo sério, bem na hora o médico me reconheceu e perguntou se era eu a mulher de José Carlos. Vê se pode isso! Eu, mulher de alguém? Não sei, não sei, mesmo. Pulei da beira da maca e saí correndo, nem olhei para a cara do doutor. O problema é que José Carlos é homem normal. Já estou vendo que vai querer ter filhos, ir para a igreja domingo de manhã, me chamar de “mulher”. Nada disso me agrada. Provavelmente me transformaria em uma daquelas dondocas de casa. Zé Carlos é normal demais para mim. E sabe o pior? É que eu gosto dele! Ai, meu Deus, o que eu faço?
Retiro o que disse antes sobre não ter ninguém para me impedir de terminar com ele, tem sim — minha mãe me arrancaria o couro e faria de bolsa só para passar o recado. Em poucos dias, estarei casada e te escrevendo da mesinha de escritório de José Carlos, na casa dele, que daqui a poucos dias vai ser a minha também. Esse casamento todo não tem nada do que eu esperava para mim. José Carlos trabalha na prefeitura, não há nada de artístico nisso, nada de especial. É tudo normal, normal. Sempre tive a certeza de que viveria coisas emocionantes, aventuras cheias de paixão e mistério, talvez com um pouco de luxo, uma pitadinha só, talvez. Uma vida bem diferente da vida de minha mãe, por exemplo. Mas aqui estou eu, dando os mesmíssimos passos que ela deu, me prendendo nessa cidadezinha no fim do mundo, em direção ao altar antes mesmo de chegar na casa dos vinte. Acha que Carlos concordaria em sair daqui se eu pedisse? Não, não, eu duvido. Ele tem uma vida de verdade aqui, eu é que não tenho nada, não seria justo com ele. Não sei o que vai ser de mim. Amo Carlos, sim, isso é verdade, mesmo. Por outro lado, não sei se aguentaria não viver nada do que eu sonhei para mim. Preciso sentir, pelo menos um pouquinho. Tenho medo de ser infeliz. Tenho muito medo de ser infeliz. Tenho medo de que eu possa vir a ser infeliz se não experimentar nem um pouco daquilo do que eu sempre quis para mim.
Queria ter conhecido José Carlos mais tarde, quando já fôssemos os dois velhinhos. Eu já teria vivido de tudo, e ele já teria se casado e divorciado incontáveis vezes. A Velha Eu não veria problema em voltar para essa cidade minúscula, nem em passar meus dias inteiros dentro de casa. Ah, quem me dera se as coisas pudessem ser totalmente diferentes. Eu amo José Carlos, amo sim, com certeza, mas amo os meus sonhos muito mais. Pena que o meu amor por si só não é o suficiente. Meus sonhos foram a única coisa que eu tive por muito tempo, Carlos é novo nesse meu mundo. Novo e já querem que eu abandone tudo por ele. Será que o meu destino era esse o tempo todo? Me casar e viver a vida da qual eu sempre fugi? O que você acha, hein? Queria que você me respondesse, precisava de uma luz sua. Guardei um convite para você, sabia? Queria que você pudesse aparecer de verdade ao invés de só na imaginação. Fico triste demais com tudo isso, gosto amargo da dor na boca, cheiro ruim de pomada para coceira velha na pele. Parte de mim está feliz por passar o resto da vida ao lado de Carlos, mas a outra está em um luto profundo por tudo aquilo que um dia eu já quis ser e não fui, nem vou.
Não sei se Zé Carlos estaria disposto a me entender, a conversar comigo sobre minhas coisas. Penso também em todos os filhos que eu teria de ter, me canso só de pensar. Eu amo muito José Carlos, mas não sei se conseguiria amar um filho dele, um filho meu. Acha que eu seria uma boa mãe? Não sei, não sei, mesmo. Acho que você também não sabe.
me diz o que você achou da bad with words de hoje! vou adorar saber :)



Uau! Nossa, esse devem ter sido uns dos textos mais bem escritos que eu devo ter lido nesse aplicativo.